As empresas estão preparadas para lidar com os jovens da Geração Z?

Um dos principais desafios das empresas no Brasil e no mundo, especialmente desde o início da pandemia de Covid-19, é encontrar a melhor forma de engajar os jovens da chamada Geração Z, que vêm se inserindo cada vez mais no mercado de trabalho e imprimindo um modo peculiar de lidar com suas responsabilidades no ambiente corporativo.

Os membros da “Gen Z”, nascidos entre 1997 e 2012, estão provocando uma verdadeira revolução no mundo do trabalho, em busca de um propósito real para além das atividades do dia a dia na empresa, priorizando a maior qualidade de vida, mais equilíbrio entre o cotidiano profissional e a vida pessoal e uma flexibilidade que lhes permita maior liberdade para conciliar interesses variados.

Essa postura dos mais jovens muitas vezes pode ser interpretada por profissionais de outras gerações como falta de compromisso, desleixo ou imaturidade. Segundo uma pesquisa divulgada em fevereiro pela plataforma Intelligent.com, que consultou cerca de mil lideranças corporativas nos Estados Unidos, 60% dos gestores diziam ter demitido funcionários recém-formados nos meses anteriores.

Do outro lado do balcão, um outro relatório, elaborado pela empresa de seguros e benefícios MetLife a partir de entrevistas com quase 3 mil funcionários de 21 anos ou mais nos EUA, mostrou que quase metade (46%) dos profissionais da Geração Z relataram que se sentiam estressados – percentual superior aos 35% de empregados de outras gerações. Parcela significativa dos integrantes da “Gen Z” também afirmaram estar esgotados (44%), deprimidos (35%) e isolados (30%) no cotidiano corporativo.

“A Geração Z já nasceu imersa em uma realidade digital na qual ela é bombardeada por uma série de comparações. As redes sociais ampliaram a comparação entre as pessoas”, observa a economista Carla Beni, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV) e conselheira do Conselho Regional de Economia do Estado de São Paulo (Corecon-SP). “É uma geração que já nasce com visibilidade, se vendendo como um produto de marketing. As crianças já têm redes sociais. Muitos pais fazem rede social para o filho antes dele nascer. Esses jovens têm uma vida na qual a intensidade de comparação com o outro é muito diferente do que foi experimentado pelas outras gerações. Isso acaba gerando uma camada muito mais profunda de frustrações”, afirma.

Empresas em “transição”

De acordo com especialistas ouvidos pelo Metrópoles, o cenário no Brasil não difere tanto da realidade norte-americana e as empresas, de forma geral, ainda têm muito a fazer para se conectar efetivamente com a Geração Z, de modo que consigam mobilizar esse grupo em torno dos objetivos do negócio.

“As empresas estão em transição. Algumas estão em um momento de maturidade maior, principalmente aquelas do ramo de tecnologia, com a cultura das startups”, afirma Távira Magalhães, diretora de Recursos Humanos da Sólides. “Depende muito do momento e do foco da organização. As empresas estão em patamares diferentes neste período de transição. Algumas ainda não reconheceram a necessidade de se preparar”, explica Távira.

“Quem ainda não reconheceu terá de fazer isso em breve, porque estamos falando da mão de obra que vem chegando com toda força no mercado de trabalho. É um bom momento para as empresas que ainda não se prepararam começarem a olhar para isso”, alerta a diretora de RH. Segundo estimativas da consultoria McKinsey, a Geração Z já responde por 27% da força de trabalho global. Esse percentual deve chegar a 30% nos próximos 5 anos.

Uma outra “visão de mundo”

Para a economista Carla Beni, a grande diferença entre a “Gen Z” e gerações anteriores como os millennials (nascidos entre 1981 e 1996), a geração X (1965-1980) e os baby boomers (1946-1964) é a maneira de lidar com o trabalho. “Houve uma mudança de visão de mundo. Para a Geração X, o trabalho é a vida da pessoa. Tanto que, quando se aposentam, muitas pessoas dessa geração praticamente perdem o sentido da vida. Já para a Geração Z, o trabalho faz parte da vida, mas não é a vida da pessoa. Essa mudança é radical no comportamento,”, compara Beni.

“A Geração X e os baby boomers não foram criados para ser felizes. O tal propósito de vida não era sequer discutido. Você tem de produzir, dar resultado e se sustentar com o seu trabalho”, prossegue a economista. “Essa geração mais nova quer ter propósito, quer qualidade de vida. Quer ser feliz, mesmo que esse conceito seja subjetivo e, por mais paradoxal que possa parecer, muitas vezes também traga um grande componente de sofrimento.”

Um levantamento com 2 mil profissionais conduzido pela consultoria de recrutamento Robert Walters, no ano passado, mostrou que metade dos funcionários da Geração Z não desejava exercer cargos de chefia de forma alguma. Destes, quase 70% afirmaram que declinariam de funções de comando por “alto estresse” e “baixa recompensa”.

“Não vejo essa recusa aos cargos de chefia como um sinal de falta de ambição. Às vezes, isso acontece pela falta de inovação dentro das organizações, pela falta de formatos de comunicação e hierarquização mais inovadora, no qual as pessoas sejam protagonistas das carreiras delas”, avalia Távira Magalhães, da Sólides.

“O que percebemos na Geração Z é essa busca pelo protagonismo na carreira. Quando o ambiente não tem uma clareza de propósito, as pessoas podem recusar [cargos de chefia]. Aquele tradicionalismo de carreira que herdamos desde a década de 1940, aliado a essa falta de processos inovadores, pode trazer um desinteresse para a Geração Z, que está em uma era totalmente tecnológica”, completa.

Presencial, híbrido ou home office?

Cinco anos após o início da pandemia, um dos pontos de atrito mais sensíveis entre empregados e empregadores (nesse caso, não apenas da Geração Z) continua sendo o formato de trabalho – 100% presencial, híbrido ou home office. Para os funcionários mais jovens, a possibilidade de um modelo mais flexível, sem horários tão rígidos, é um dos diferenciais mais atrativos que uma empresa pode oferecer.

“Grande parte do retorno ao trabalho 100% presencial é exigência da cabeça da Geração X e dos baby boomers. Essas duas gerações foram muito sacrificadas ao longo da vida e aprenderam a pensar dessa forma”, diz Carla Beni, da FGV.

“Também existe uma situação financeira em questão, que é muito pouco abordada. As empresas já imobilizaram capital, construíram prédios, têm salas para reuniões e precisam dar uso a isso. Abrir mão daquilo que compraram faz com que as empresas queiram colocar as pessoas de novo sentadas na cadeira para trabalhar, mesmo sabendo que a produtividade não aumenta necessariamente”, explica a economista. “Você vai vender o prédio? Vai vender metade do prédio? Esse também é um processo decisório que tem a ver com questões patrimoniais e financeiras.”

Uma pesquisa da consultoria imobiliária JLL indica que a taxa de vacância (percentual de imóveis comerciais disponíveis para locação) vem caindo de forma gradativa nos últimos anos, se aproximando dos níveis pré-pandemia. Em São Paulo, no 4º trimestre de 2024, houve um recuo de 2,6 pontos percentuais em relação ao mesmo período do ano anterior.

“A Geração Z é uma geração de experiências. Você precisa ter motivos para o presencial. Por exemplo, é uma geração muito voltada para jogos. Quando você proporciona eventos e atividades ligados à gamificação, isso gera uma conexão maior para esses jovens”, afirma Távira Magalhães. “O modelo presencial é um ambiente para fomentar conexões, e não isolamento. Fazer práticas de aprendizado e vivências entre equipes, mesmo que sejam de áreas diversas, são exemplos de propósito para incentivar esse trabalho”, defende.

Segundo a diretora de RH, apesar dos ruídos ainda presentes na relação entre as empresas e a Geração Z, é fundamental que as organizações se esforcem para se aproximar desse público, o que tende a ser benéfico para todos – as próprias companhias e os funcionários mais velhos. “Aprendemos demais com a Geração Z, que traz conhecimentos complementares às demais gerações. Esses jovens estão pulsando em termos de inovação, o que é enriquecedor para todos”, conclui.

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