“Fui sumariamente punido por exercer o meu trabalho”, afirma diretor técnico demitido do HPSC e HNSG

O Hospital de Pronto Socorro de Canoas (HPSC) e o Hospital Nossa Senhora das Graças (HNSG) estão sem diretor técnico. O médico Álvaro Fernandes foi desligado nesta segunda-feira (31) do cargo que ocupava em ambas as casas de saúde. A demissão ocorre em meio à situação delicada que o sistema de saúde enfrenta em Canoas.

Álvaro Fernandes



Álvaro Fernandes

Foto: Juliano Piasentin/GES-Especial

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Fernandes foi demitido após emitir uma declaração de impossibilidade técnica de atendimento na emergência e urgência do HPSC. No ofício, o então diretor técnico sinalizou que havia “insuficiência técnica em escalas médicas em setores essenciais e prioritários para a assistência médica.”

Ainda na segunda-feira, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e a gestora do HPSC, o Instituto de Administração Hospitalar e Ciências da Saúde (IAHCS), negaram a suspensão dos atendimentos a partir desta terça-feira (1º).

“Me senti humilhado e desrespeitado. Fiquei sabendo da demissão do HPSC pela imprensa. Do HNSG, o superintendente do hospital me enviou uma mensagem comunicando o meu desligamento, mas sem qualquer justificativa”, lamenta.

A decisão do desligamento de Fernandes do HPSC possui contradições. Procurado pela reportagem, o IAHCS informou que não se manifestará sobre o assunto, no entanto, ressaltou que a deliberação foi realizada pela SMS. Em contrapartida, na segunda-feira, a Secretaria de Saúde disse que a decisão foi feita pelo IAHCS.

“Até agora não sei de onde partiu a ordem. Não recebi nenhum documento oficial sobre o desligamento. Nenhum telefonema, nada. Fui sumariamente punido por exercer o meu trabalho. Era minha função zelar pelo cumprimento dos atendimentos em segurança. Com uma escala de médicos incompleta, era impossível.”

“Dediquei parte da minha vida ao HPSC”

Fernandes atuava no HPSC desde 2009 e estava no cargo de diretor técnico da instituição desde 2021. Já no HNSG, estava no cargo há um mês.

“Dediquei parte da minha vida ao HPSC. Estive presente em diferentes momentos do hospital. Na enchente de maio, fui o último a sair do prédio. Mas nada disso foi considerado. Fui ignorado e desmoralizado, sem chance de defesa. Não sou político, sou técnico. Era minha obrigação sinalizar a falta de médicos em diferentes especialidades”, destaca.

Segundo o profissional, não havia anestesista, neurologista, traumatologista e cirurgião plástico na escala do hospital.

“Os médicos perderam a confiança. A falta de condições mínimas de trabalho, de insumos básicos e o atraso nos salários são os principais fatores. Desde a enchente, a situação só se agravou mais ainda. No último mês, chegou no limite. Não é possível maquiar a falta de tantos profissionais, é um risco para a segurança.”

O médico relembra que, no último domingo (30), o HPSC recebeu a visita do secretário municipal de Saúde, Eduardo Bermudez.

“Comuniquei sobre a escala incompleta, o secretário me respondeu que não tinha essa informação e me pediu para emitir um documento para oficializar a situação, foi o que fiz. O resultado foi não ter resposta e na sequência, ser demitido.”

Pacientes apontam descaso

Na tarde desta terça-feira, a emergência e urgência do HPSC seguia operando. O fluxo de pessoas na entrada do hospital, que está atendendo no prédio do Hospital Nossa Senhora das Graças, era mediano.

Aline dos Santos reclama das más condições do HPSC



Aline dos Santos reclama das más condições do HPSC

Foto: Taís Forgearini/GES-Especial

Segundo relatos de pacientes e familiares, a situação de superlotação permanece no local. Entre as principais reclamações estão a demora no atendimento e nos resultados de exames, a falta de retorno dos médicos, a insuficiência de acomodações apropriadas e falta de profissionais especialistas, como, por exemplo, traumatologista.

Aline Rodrigues dos Santos, 41 anos, alega más condições de infraestrutura para atender os pacientes.

“Meu pai ficou horas esperando ser atendido. Enquanto aguardava um leito de internação, colocaram ele e outras pessoas em uma sala improvisada, com risco de segurança. Colocaram a cama embaixo de uma caixa de fios, se aquilo caí na cabeça do meu pai, mata-o. As fraldas que ele precisou, eu tive que comprar”, desabafa.

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