Vale Tudo renasce com Taís Araújo e Bella Campos, mais real e diversa

A estreia do remake de Vale Tudo não foi apenas um retorno de uma história emblemática, mas um manifesto de que a teledramaturgia brasileira, quando conduzida com inteligência e respeito ao seu próprio legado, pode ser tão arrebatadora quanto um poema bem escrito. Não foi apenas um primeiro capítulo, mas um prenúncio de que há fôlego para contar essa história outra vez, agora sob novas lentes, mas sem perder a potência de seu espelho social.

E que espelho. Se há uma força nesta nova versão, ela se assenta no talento das atrizes que conduzem sua narrativa. Taís Araújo interpreta Raquel Acioli de forma arrebatadora. Sua interpretação é uma dança de contenção e fúria, de uma mulher que aprendeu que amor nem sempre basta e que dignidade não se vende. Em cada olhar, em cada silêncio, Taís entrega camadas de humanidade que fazem de sua Raquel uma figura real, palpável, urgente. Ela não repete a Raquel de Regina Duarte; ela a ressignifica, adicionando novas texturas e ressoando com o Brasil de hoje, onde mulheres negras seguem lutando por respeito, espaço e voz.

Bella Campos, por sua vez, não apenas interpreta Maria de Fátima – ela a reinventa. Sua ambição, que antes era vestida pelo desejo de ser modelo, agora se adapta aos tempos digitais. Sua personagem quer visibilidade, quer ascensão, quer fugir da mediocridade que a vida lhe impõe. Bella entrega tudo com intensidade e precisão, tornando Fátima ainda mais complexa, ainda mais contemporânea, ainda mais perigosa. Há nela uma inquietação que vibra como eletricidade, como um raio prestes a atingir seu alvo. Ela não quer apenas existir – ela quer ser vista. E Bella faz com que não tiremos os olhos dela.

Mas há algo ainda maior acontecendo nesta versão. No coração dessa novela, no centro de sua memória e de sua resistência, está Antônio Pitanga. Sua presença é mais do que um acerto; é uma reverência à história da televisão, ao ofício da atuação, ao poder dos símbolos que carregam a dramaturgia brasileira há décadas. Pitanga não está em cena apenas para ilustrar o passado, mas para demonstrar, com cada entonação de voz, com cada gesto, com cada pausa cirúrgica, que atores veteranos não são relíquias, mas colunas que sustentam o presente. Sua interpretação de Salvador transcende o papel: ele é o elo entre gerações, é o respiro necessário num mundo que insiste em acelerar sem olhar para trás.

A escolha de protagonistas negras em Vale Tudo não é apenas uma decisão acertada, mas uma reparação histórica dentro da teledramaturgia brasileira. Se na versão original a trama refletia um Brasil de desigualdades, mas ainda assim se rendia ao protagonismo branco, agora a história se expande para abarcar a verdadeira face do país: múltipla, potente, negra. Taís Araújo e Bella Campos não estão apenas ocupando um espaço que sempre deveria ter sido delas; elas estão ressignificando a narrativa, dando camadas mais profundas a personagens que, ao serem lidas sob outra ótica, tornam-se ainda mais simbólicas. E o primeiro capítulo já revelou que essa nova versão abraça a diversidade com mais autenticidade, sem ignorar o Brasil real, aquele que há séculos é sustentado por pessoas negras, mas que tantas vezes foi apagado das telas. Dessa vez, Vale Tudo começa assumindo que o Brasil sempre foi negro – a televisão é que demorou a enxergar.

E por trás de tudo isso, há uma inteligência feroz guiando a trama. Manuela Dias assume a responsabilidade de revisitar Vale Tudo sem reduzi-la a uma nostalgia vazia. Em suas mãos, a história mantém a pulsação do original, mas dialoga com as inquietações de agora. Há um olhar atento às novas dinâmicas sociais, à tecnologia, aos conflitos morais que se rearranjaram no tempo. Seu texto não apenas homenageia o clássico, mas o expande.

Manuela Dias imprime sua marca com maestria ao adaptar Vale Tudo, demonstrando profundo respeito pelo texto original enquanto o reconfigura para um Brasil contemporâneo. Sua escrita é precisa, afiada, equilibrando diálogos naturais com camadas simbólicas que enriquecem a narrativa. A autora não apenas atualiza os conflitos sociais e morais da trama, mas os potencializa, tornando-os ainda mais contundentes e necessários. Já Paulo Silvestrini, junto de seu time de diretores – Augusto Lana, Fábio Rodrigo, Isabella Teixeira, Matheus Senra e Thomaz Cividanes –, conduz a direção com sofisticação e sensibilidade, explorando enquadramentos que valorizam as atuações e imprimindo um ritmo que prende o espectador sem pressa, permitindo que cada cena respire e ganhe força.

A estreia de Vale Tudo foi mais do que um capítulo inicial. Foi um reencontro com a própria arte de contar histórias. E, mais do que isso, uma lembrança necessária de que a dramaturgia brasileira ainda sabe, e sempre saberá, como nos prender diante da tela – com talento, com inteligência e com um olhar atento ao mundo em que vivemos.

Que siga assim, mantendo nossos olhos fixos na tela, hipnotizados a cada cena.

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