Dados da indústria em fevereiro reforçam leituras de desaceleração econômica gradual

Indústria brasileira vem perdendo participação no Produto Interno Bruto (PIB) (Foto: Freepic)

Fevereiro foi o 5º mês consecutivo no quala produção industrial brasileira não mostrou crescimento na margem, que corrobora as leituras de que a atividade econômica brasileira atravessa um momento de desaceleração gradual. Para os economistas, isso é reflexo direto do aperto das condições monetárias pelo Banco Central, que passou a elevar os juros para trazer a inflação à meta. Mas ele comentam que esses impactos são mais intensos em determinados setores.

O IBGE informou nesta quarta-feira (2) que a produção industrial teve recuo de 0,1% em fevereiro, um pouco menos intenso que o esperado pelo mercado, mas apresentou avanço de 1,5% ante o mesmo mês do ano anterior. Em janeiro, tinha sido anunciada uma estagnação (0,0%), após três meses de queda.

No mês, o desempenho negativo da indústria foi puxado pela queda nos bens de consumo duráveis (-3,2%) e bens de consumo não duráveis (-0,8%). As principais influências negativas vieram de produtos farmoquímicos e farmacêuticos (-12,3%) e produtos de madeira (-8,6%).

A queda no mês foi amenizada pelo avanço dos bens de capital (+0,8%) e bens intermediários (+0,8%), com destaque para o crescimento das indústrias extrativas (+2,7%) e produtos alimentícios (+1,7%).

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Rafael Perez, economista da Suno Research, destacou em sua análise que já são cinco meses consecutivos que a indústria não apresenta crescimento, com uma queda acumulada de -1,3% no período. “O que revela que o setor tem sido um dos mais impactados pela combinação de alta dos juros, encarecimento do crédito, queda na confiança dos empresários, desvalorização da taxa de câmbio, alta dos custos das empresas e um cenário externo desafiador marcado pelo aumento das tarifas de importação pelos EUA”, comentou.

Ele disse esperar para 2025 um crescimento mais equilibrado entre as indústrias Extrativa e de Transformação. “A primeira deve retomar o crescimento, impulsionada pela expansão da produção de petróleo e minérios, após um ano de estabilidade (0,0%). Já a indústria de transformação, que avançou 3,6% no ano passado, deverá ser mais afetada pelo cenário desafiador, em especial pela política monetária mais restritiva”, estimou..

Para Perez, diante desse quadro, o crescimento industrial em 2025 deve ficar abaixo dos 3,1% registrados no ano passado. “Mas ainda assim apresentar uma expansão moderada, que deve ser sustentada pelas condições favoráveis para a demanda, marcada pelo mercado de trabalho resiliente e os estímulos para a tomada de crédito pelo governo.”

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Na opinião de André Valério, economista sênior do Inter, o resultado de fevereiro reafirma a tendência de acomodação do crescimento, mas sem indicar uma desaceleração desordenada.

“Os dados sugerem que o aperto nas condições financeiras e o aumento da incerteza tem impactado o dinamismo do setor, com atividades mais dependentes de investimento e da demanda indicando maiores dificuldades nos últimos meses, enquanto os setores mais descolados do ciclo econômico mantêm robustez na sua produção”, detalhou.

Em sua análise, Claudia Moreno, economista do C6 Bank, citou que, depois de encolher em janeiro, a indústria extrativa, segmento que é bastante volátil, cresceu 2,7% em fevereiro. Já a indústria de transformação teve uma retração de 0,5%.

“Entre as categorias de uso, houve uma elevação de 0,8% em bens de capital, segmento ligado a investimento em máquinas e equipamentos. Apesar de vir apresentando alguma resiliência, acreditamos que essa categoria deve ser uma das mais impactadas pelos juros altos mais à frente”, alertou.

Ela disse acreditar que a indústria brasileira deve perder força ao longo de 2025. “Por ora, nossa expectativa é de que a produção industrial termine o ano com uma retração de 0,4%. Em 2024, o setor teve uma expansão de 3,1%”, lembrou. “Nossa projeção é de que o PIB do 1º trimestre venha momentaneamente mais forte, com uma expansão de 1,7% ante o último trimestre de 2024.”

Para os próximos meses, o C6 Bank espera uma desaceleração gradual da atividade, com o PIB crescendo 2% em 2025 e 1% em 2026.

Resultados mistos

Já a XP diz em relatório que os resultados do mês se mostram mistos, com 2 das 4 grandes categorias econômicas e 14 das 25 atividades manufatureiras caindo na comparação mensal. Do lado negativo, foi destacada a queda de Bens Semi e Não Duráveis (-0,8%), principalmente devido ao recuo de Produtos Farmacêuticos. Também foi citada a retração mensal da categoria de Bens Duráveis, que caiu -3,2% em fevereiro após crescer +3,8% em janeiro.

Do lado positivo, foi lembrado que a categoria de Bens de Capital aumentou 0,8% em fevereiro, o que é um sinal positivo para a Formação Bruta de Capital Fixo(FBCF) do 1º trimestre.

Já a categoria de Bens Intermediários retomou o crescimento após um resultado decepcionante na leitura anterior + 0,8% em fevereiro após -1,6% em janeiro, com destaque para a recuperação da Indústria Extrativa (+2,7% após -2,5%). “Esperamos que essa atividade ganhe força nos próximos trimestres, impulsionada principalmente por petróleo e gás”, disse a XP no relatório.

“O cenário de desaceleração gradual da indústria manufatureira permanece. Condições financeiras mais apertadas e piora da confiança empresarial devem cobrar seu preço. Dito isso, a resiliência do mercado de trabalho e as medidas governamentais anunciadas recentemente devem apoiar a demanda doméstica no curto prazo”, previu.

Para a XP, a produção industrial geral aumentará 2,2% em 2025, abaixo dos 3,1% em 2024. Já do XP Tracker para o crescimento do PIB é de 1,3% no trimestre, principalmente devido ao salto na Agricultura e na Pecuária. “Nossa projeção para o crescimento do PIB em 2025, atualmente em 2,0%, tem tendência para cima.”

Leonardo Costa, economista do ASA, também analisou que a indústria tem andado de lado no começo de 2025, vindo de queda no final de 2024. “Esperamos PIB mais forte no começo de 2025, com destaque para o setor agrícola e de consumo, a indústria deve ter pouco destaque”, disse.

Na opinião de Igor Cadilhac, economista do PicPay, os dados do mês, somados à alta de 0,1% nos insumos típicos da construção civil, indicam uma nova melhora na proxy do PIB de investimentos em fevereiro.

“Para 2025, projetamos um crescimento de 2% na produção industrial brasileira. Apesar dos desafios impostos pela desaceleração da economia global e pelo prolongado período de juros elevados, acreditamos que a retração será moderada. Fatores como uma balança comercial sólida e políticas governamentais de estímulo à atividade econômica devem ajudar a mitigar os impactos negativos”, comentou.

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