Ibovespa e dólar futuros têm montanha-russa com fala de Trump; o que mercado achou?

O Ibovespa fechou praticamente estável no pregão regular desta quarta-feira (2), com leve variação positiva de 0,03%, aos 131.190 pontos, enquanto Donald Trump falava nos ajustes finais do mercado sobre as medidas tarifárias tão aguardadas pelos investidores.

A aparente calmaria, contudo, não se manteve para o Ibovespa futuro de vencimento mais próximo, o INDJ25, com vencimento em abril, que operou até depois das 18h (horário de Brasília), tendo os impactos de todo o discurso do presidente americano.

Nos minutos iniciais do discurso e antes do anúncio de medidas mais diretas, o INDJ25 chegou saltar 1,53%, a 133.680 pontos (ante fechamento de 131.660 pontos da véspera), amenizou os ganhos e, conforme Trump foi detalhando as medidas tarifárias, passou a cair, com mínima a 130.900 pontos durante as falas, ou queda de 0,58%.

O índice futuro voltou a se recuperar, mas logo voltou a ter quedas mais fortes e fechou em baixa de 0,69%, a 130.750 pontos, às 18h33 (horário de Brasília), também seguindo a queda dos mercados americanos.

Trump anunciou a fixação de uma alíquota mínima de 10% sobre importações de todos os países. No entanto, nações que aplicam tarifas consideradas “elevadas” contra produtos norte-americanos enfrentarão taxas ainda maiores.

Produtos provenientes da Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Chile, Colômbia, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Irã, Panamá, Paraguai, Reino Unido, Turquia, Ucrânia e Uruguai receberão a tarifa mínima de 10%.

Já as tarifas recíprocas para a China serão de 34%, enquanto os produtos da União Europeia serão taxados em 20%. Para o Japão, Coreia do Sul e Índia, as sobretaxas serão de 24%, 25% e 26%, respectivamente. Importações da Suíça terão uma tarifa de 31%, enquanto os produtos da Venezuela serão taxados em 15%.

A tabela de tarifas divulgada pela Casa Branca não menciona sobretaxas para Canadá e México.

“Quando a coletiva de imprensa começou, o presidente disse que as tarifas começariam com uma base de 10% para todos os casos. Isso foi melhor do que o esperado, o que fez os futuros subirem. Mas, quando ele entrou nos detalhes e começou a dar exemplos de tarifas significativamente mais altas do que os 10%, foi aí que os futuros [dos EUA] viraram e caíram para o negativo, porque foi pior do que o esperado”, afirmou Chris Zaccarelli, diretor de investimentos da Northlight Asset Management.

“Num primeiro momento, as tarifas vão aumentar os custos e reduzir os lucros corporativos. Se houver uma reformulação da economia, tenho certeza de que os mercados terão um julgamento diferente, mas a reação instintiva de curto prazo é para os aumentos iniciais de preços”, apontou.

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Na terça-feira, o dólar à vista fechou em baixa de 0,42%, a R$5,6830.

Com a tarifa mínima de 10% para o Brasil, o dólar futuro para maio se firmou em queda, operando abaixo de R$ 5,69. Às 18h04, o dólar para maio — atualmente o mais líquido no mercado brasileiro — cedia 0,32%, a R$ 5,6930. Contudo, na reta final do pregão, e com a aversão ao risco maior no mercado, a divisa para maio fechou em alta de 0,14%, a R$ 5,719. Pouco antes do anúncio de Trump, às 16h57, o dólar para maio subia 0,22%, a R$ 5,7240, indicando também um movimento de forte volatilidade em meio aos anúncios.

Para o gestor de Renda Fixa Ativa da Inter Asset, Ian Lima, a tendência é de que o real sofra pouco no novo ambiente tarifário.

“Primeiro, o impacto sobre a balança comercial brasileira deve ser pequeno, uma vez que o fluxo comercial do Brasil com os Estados Unidos não é o mais relevante”, avaliou, em comentário enviado à Reuters. “Por outro lado, o efeito líquido das tarifas pode ser positivo, especialmente se houver retaliação por parte da China e da Europa. O Brasil tende a ganhar ‘market share’ de suas exportações, à medida que essas regiões direcionem suas demandas para outro lugar, particularmente o agro, que sofre grande competição com o agro americano.”

“O impacto da ‘guerra das tarifas’ será mais imediato na inflação dos EUA do que na atividade, o que suporta a cautela do Federal Reserve com o número de cortes dos juros precificado pelo mercado, que está mais dovish que a autoridade monetária”, afirma o economista-chefe da Equador Investimentos, Eduardo Velho, ressaltando que o risco de estagflação nos EUA “está aumentando”.

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O chefe de estratégia de investimentos da UBS Wealth Management no Brasil, Ronaldo Patah, mantém como cenário base um quadro benigno para a economia e os mercados nos EUA. A avaliação é que o governo Trump não quer ser o responsável por desencadear uma recessão.

“Portanto, calibrará as tarifas e as negociações subsequentes de modo a preservar o crescimento econômico e deixar o caminho aperto para que o Fed possa voltar a cortar os juros ainda esse ano”, afirma Patah, em nota.

Na visão de Paula Zogbi, gerente de Research da Nomad, o governo americano trouxe medidas duras.

Trump enfatizou que as medidas serão imediatas, mas defendeu que são “gentis”, utilizando um tom duro e confirmando os temores do mercado em torno da abrangência das medidas.

Assim, embora o anúncio tenha como objetivo estimular e expandir a indústria doméstica, o mercado observa potenciais pressões inflacionárias e aumentos nos custos, podendo gerar choques negativos para a atividade – lembrando que quem pagará mais pelos produtos importados não serão os estrangeiros, e sim os americanos.

“A volatilidade deve seguir sendo a tônica do mercado enquanto acompanhamos novos desdobramentos das medidas, com prováveis novas revisões de expectativas para os resultados das companhias por analistas e uma possível continuidade do fluxo financeiro para teses mais defensivas e outras economias globais”, aponta Zogbi.

(com Reuters e Estadão Conteúdo)

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