João Biehl lança livro sobre Jammerthal com revelações sobre o conflito Mucker

O livro “Jammerthal, o Vale da Lamentação: A Minha Guerra Mucker” apresenta o conflito Mucker e a comunidade de Jammerthal em Picada Café, sob uma outra perspectiva. O autor João Biehl é antropólogo e professor da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Dois eventos de lançamento estão marcados para os próximos dias na região. Nesta quinta-feira (3), às 19 horas, no Centro de Cultura Lucio Fleck, e no sábado (5), às 15 horas, no Museu Histórico Visconde de São Leopoldo. Após as apresentações, haverá sessão de autógrafos com Biehl.

O evento em Sapiranga contará também com uma exposição de fotografias do artista dinamarquês Torben Eskerod, tiradas em Jammerthal e nas colônias vizinhas que estão incorporadas no livro.

“No início não havia Mucker e a guerra Mucker é uma guerra sem fim. Essa é a questão principal que tem me assombrado na vida acadêmica nas últimas décadas e também me fez encarar de frente as brutalidades e sabedorias que moldaram meu jeito de ser e meu senso de humanidade, já que sou descendente de colonos pobres e sem ensino, assim como a maior parte das famílias chamadas Mucker — literalmente, aqueles que cavam Muck, ou seja, esterco – falsos santos, pessoas de sangue ruim, hipócritas”, destaca Biehl, que é natural de Picada Café.

Na obra, Biehl entrelaça o contexto social e político com sua história pessoal, pesquisas antropológicas e históricas inéditas.

“Será um grande prazer estar com vocês e repartir um pouco do trabalho que tenho feito ao longo dos anos para entender essa complexa história: quem de fato orquestrou e se beneficiou da Guerra Mucker, ou seja, as elites econômicas e religiosas, e também trazer à luz as sabedorias coloniais que ainda hoje clamam por reconhecimento”, diz Biehl, convidando o público para compartilhar o conhecimento durante os dois eventos.

O livro foi publicado pela Editora Oikos e mais informações podem ser adquiridas pelo site www.oikoseditora.com.br, pelo e-mail [email protected] e pelo WhatsApp WhatsApp: (51) 98114-9642.

 

Eventos de lançamento

Sapiranga:

Data e horário e local: Dia 3 de abril, às 19 horas, no Centro Municipal de Cultura Lucio Fleck

 

São Leopoldo:

Data, horário e local: Dia 5 de abril, às 15 horas, no Museu Histórico Visconde de São Leopoldo

Entrevista

 

Qual é o diferencial do livro?

João Biehl – O livro “Jammerthal, o Vale da Lamentação: A Minha Guerra Mucker” não se furta a ver as coisas como elas são, a partir da vida vivida e na tradição dos oprimidos. Ele ilumina a barbárie da história e as falsificações que se tornaram verdade e basearam o autoritarismo das classes dominantes — quem de fato desejou a guerra e se beneficiou dela tanto na época quanto no século seguinte. Ao mesmo tempo, revela uma misteriosa longevidade Mucker ligada ao espírito da natureza e ao cuidado com os mortos, que perdura nessa paisagem sulina, junto com um desejo de reparação e de uma outra história possível, que escape à “conspiração do silêncio” (palavras de W. S. Sebald) e suas impunidades.

Jammerthal, O Vale da Lamentação: A minha Guerra Mucker | abc+



Jammerthal, O Vale da Lamentação: A minha Guerra Mucker

Foto: Divulgação

O que motivou a escolha por abordar a localidade de Jammerthal?

Biehl – Escolhi o nome Jammerthal (uma belíssima e remota colônia, agora parte do município de Picada Café, onde nasci) para me referir, no livro, às antigas colônias satélites da sede colonial de São Leopoldo.
Nas histórias contadas pela gente simples e nos arquivos caseiros passados de geração em geração, encontramos a força contínua e animadora de uma maneira alternativa de viver com a diferença e juntos, incorporada pelos infames Mucker.

E quais aspectos sociais e históricos permearam aquela época?

Biehl – Há 200 anos, em 1824, as autoridades imperiais fundaram a Colônia de São Leopoldo para receber milhares de imigrantes alemães. Isso fazia parte de um plano militar-agrícola que visava à ocupação e à defesa das fronteiras meridionais. Esse era o tradicional território do povo caingangue, que foi dizimado ou deslocado no início do século 19, resultado de várias iniciativas governamentais e privadas, incluindo uma tentativa fracassada de plantation baseada em trabalho escravo na região do Leonerhof (atualmente município de Sapiranga), palco da Guerra Mucker em 1874.

Milhares de camponeses, “lumpenproletariado”, ex-prisioneiros e mercenários, foram recrutados com promessas de terra, cidadania e direitos religiosos como protestantes – nenhuma das quais jamais foi cumprida totalmente. Lápides daqueles primeiros anos mostram a dureza do dia a dia e a identidade social marginalizada daqueles colonos: “Aqui não temos um lugar permanente. Estamos em busca do lugar futuro.”

Inicialmente, os imigrantes só cultivavam a terra para a sua própria subsistência, mas, na década de 1860, as colônias já prosperavam economicamente. Essa região, cada vez mais importante para a província e para o império, passou a ser observada com atenção também pela Alemanha. A emergente potência mundial queria expandir suas transações comerciais e fortalecer enclaves étnicos puros na América do Sul. Enquanto isso, uma emergente burguesia teuto-brasileira começava a desenvolver a ideia de um hiesiges Deutschtum (germanismo local), baseado em conceitos de superioridade racial e cultural, e buscava representação política. Missionários protestantes e jesuítas alemães recém-chegados, por sua vez, denunciaram a suposta “arreligiosidade” dos colonos e se empenharam em erradicar a prática comum do sacerdócio leigo.

Enquanto isso, aquela gente simples tinha de achar maneiras de, por conta própria, aprimorar infraestruturas precárias, criar terapêuticas para repelir males de todo tipo e lidar com uma altíssima mortalidade, como fizeram os chamados “falsos santos” Mucker.

E foi assim que começou o movimento?

Biehl – No final da década de 1860, surge um movimento terapêutico-religioso entre os colonos, com base nos transes e nas interpretações bíblicas de uma jovem chamada Jacobina Mentz Maurer (nascida em Hamburgo Velho), e nos chás e emplastros medicinais preparados por seu marido, João Jorge Maurer (mais um entre tantos outros curandeiros do Brasil oitocentista). Filhos da primeira geração de imigrantes, trabalhavam a terra que Jacobina havia herdado do pai, no sopé do imponente Morro Ferrabraz. Ambos mal sabiam ler e escrever.

João Jorge Maurer e Jacobina Mentz Maurer | abc+



João Jorge Maurer e Jacobina Mentz Maurer

Foto: Arquivo

“Depois de três anos em perfeita ordem”, como diria mais tarde João Daniel Noé, um dos participantes de primeira hora dessas reuniões, o grupo ficou conhecido, primeiro entre vizinhos desgostosos e depois pela igreja, pela imprensa, pela polícia e pelo governo, como os fanáticos e criminosos Mucker.

E como aconteceu o massacre?

Biehl – No inverno de 1874, após um ano de intenso conflito, cerca de cem colonos foram caçados e mortos como bestas selvagens pelo Exército brasileiro e por veteranos da Guerra do Paraguai, em decisões influenciadas pelas elites germanistas. Desde então, nessa parte do meu mundo a palavra Mucker ganhou os significados de fanatismo, sedição e loucura assassina, enquanto aqueles que fizeram da guerra uma realidade inevitável permanecem nas sombras de sua própria história.

E quando começou o teu interesse pelo tema?

Biehl – Já faz três décadas que retorno ao lugar onde tudo começou pra mim em busca de traços dos Mucker. Primeiro, foi como parte da minha tese de mestrado em filosofia na Universidade Federal de Santa Maria; mais recentemente, na reescrita desse trabalho pioneiro com base em novas pesquisas para um livro sobre a Guerra Mucker que estou escrevendo em inglês.

Tenho um carinho especial por este livro. Como escrevo na introdução, a base do livro é o último texto que escrevi à mão (e em português, antes de emigrar para os Estados Unidos em 1991). Uma espécie de despedida dos mundos míopes da teologia e da filosofia, da minha formação inicial, o texto também serviu como um passaporte para o desconhecido que agora é minha vida. Com o tempo, tornou-se tanto um memorial vivo de meu destino mortal quanto fomentou a recuperação da criatividade e do senso de injustiça e do desejo de reparação de minha ancestralidade colona.

Em meio a isso teve a busca pelas suas próprias raízes?

Biehl – Ao retornar às colônias da minha infância, em busca de algum alento e inspiração para contar “a minha Guerra Mucker”, eu puxava conversa com estranhos ao longo das estradas e visitava parentes distantes. Também caminhava por cemitérios do século XIX e participava de cultos e festas comunitárias, encantado com qualquer resquício de uma antiga cultura popular que aparecesse em meu caminho. Essa abertura para o existenciário colono aguçou minha capacidade de discernir o que estava ausente ou fora de lugar nas narrativas oficiais, bem como de prestar mais atenção à porosidade que existia entre o vivo e o inanimado, o humano e outros seres além-dos-humanos, naquele meu mundo original marcado por todos os cortes e anulações que vieram com a Guerra Mucker.

Como foi o processo de pesquisa?

Biehl – Visando descobrir quem realmente queria a guerra, procurei pela presença dos lendários Mucker nos arquivos do poder em São Leopoldo, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Berlim. Pouco a pouco, essa ocorrência fora do comum começou a se mostrar cada vez mais intricadamente multiescalar. E eu comecei a delinear como aquele povo simples foi, passo a passo, fabricado e eliminado como Mucker, sujeito que estava a uma série de distinções – primitivo/civilizado, brasileiro/alemão, rural/urbano, analfabeto/instruído, religioso/secular, antiquado/moderno – e suas efetivações.

Como mencionei, no início não havia Mucker. Até o embate final, os colonos reunidos ao redor de Jacobina e João Jorge insistiam em sua dignidade e em ser chamados pelos próprios nomes. Enquanto personagens falsos das elites, uma entidade supostamente orgânica, abstraída de seu enraizamento social, ambiental e político, os Mucker se tornaram uma espécie de reagente mediando o aparecimento do germanismo local como uma realidade política totalitária e um pensamento faccioso. Para pertencer a esse tipo de parapúblico idealizado e conquistar a garantia de alguma representação política e oportunidade econômica, os colonos teriam que abrir mão de seus modos de vida autônomos e autogoverno, bem como de sua própria capacidade de transcendência.

Quais foram as principais descobertas?

Biehl – Essa destruidora elite germanista, entretanto, tem sido metodicamente omitida da historiografia Mucker. No entanto, em minha investigação, não consegui evitar a conclusão de que as elites de Porto Alegre e São Leopoldo tinham orquestrado ativamente o conflito, por meio de relatos sensacionalistas, falsos testemunhos, apoio a incursões policiais e petições para deportação de famílias Mucker, chamadas de “Weißer Neger” (negros brancos), “adoradores de feitiços africanos” e até “abaixo de negros”, como o jornalista Carlos von Koseritz os escarnecia.

A narrativa dominante do germanismo não só configurou o debate público na época, como também impregnou os principais relatos históricos da guerra, os quais, por sua vez, informaram a historiografia e a identidade da região como sendo alemã, etnicamente pura, ordeira e superior ao restante da população, não verdadeiramente colona e autônoma. Com a emergência violenta de uma identidade alemã, surgiu também a percepção de que as coisas poderiam ser diferentes, de que um certo modo de conhecer a si mesmo e o mundo era agora uma moeda desvalorizada, uma coisa do passado.

A Guerra Mucker, a primeira revolta messiânica do Brasil moderno, que ocorreu há 150 anos, foi basicamente apagada da memória nacional, mas ainda ressoa porque a impunidade persiste e a justiça deve ser feita àqueles que tiveram sua dignidade, seus direitos e sabedorias ceifadas. À medida que vestígios de uma forma distinta de viver em conjunto e com a natureza continuam emergindo de cantos e arquivos subalternos, e as novas gerações se tornam cada vez mais conscientes do mal causado pelos poderes falsificadores e amnésicos da colonialidade e da supremacia branca, também somos desafiados a continuar abrindo nossas histórias familiares e coletivas, revisitando criativamente as encruzilhadas do passado e vislumbrando outros horizontes.

Esse é o enredo principal de “Jammerthal, o Vale da Lamentação: A Minha Guerra Mucker”.

Como foi a parceria também para produzir imagens?

Biehl – O fotógrafo dinamarquês Torben Eskerod, um querido amigo e colaborador de muitos anos, foi comigo ao Jammerthal pela primeira vez no início de 1991, tornando-se meu outro par de olhos, com sua câmera aberta para o que estava além da compreensão. Encantado por inesperados vestígios ancestrais, artes funerárias, paisagens humano-animais e tentativas das pessoas de estabelecer contato e se esconder, Torben recusou o papel de documentarista tradicional. Ao sobrepor o presente e o passado, ele queria tornar tangíveis traços de uma amaldiçoada senciência Mucker e a passagem do tempo nesse canto do mundo que a maioria desconhece. Com sua qualidade espectral, as fotografias que Torben tirou em Jammerthal e nas colônias vizinhas definitivamente levaram meu pensamento além do que a historiografia havia apagado ou minha própria memória havia congelado. Resistindo à síntese, as fotografias de Torben carregam uma intensidade que a escrita, por si só, não consegue alcançar, assegurando a contínua emergência do desconhecido e impensado, que eu não quero e não posso deixar morrer.

Com o passar dos anos, à medida que vastos trechos da minha vida caíam no esquecimento, as imagens sobreviventes daquela primeira incursão ao Jammerthal foram adquirindo uma presença significativa em minha mente, alimentando o desejo de retornar àquele outro espaço-tempo e reavivar esse manuscrito, que agora, com revisões e atualizações historiográficas, finalmente chega até os leitores.

As emocionantes fotografias de Torben fazem um dueto com o texto: sem relação de anterioridade, é como se as imagens entrassem no texto e vice-versa.

O livro é meu esforço sincero de voltar para casa mais uma vez, de conhecer essa paisagem de uma maneira diferente, um pouco mais livre.

Não há livro que não tenha sido feito por muitas mãos. Nos agradecimentos, que abrem com um verso não escrito de um sobrevivente hinário Mucker — “Abres a tua mão e satisfazes os desejos de todos os viventes” —, agradeço de coração a todas as pessoas das colônias ancestrais, de casa e de instituições acadêmicas que me apoiaram na escrita inicial deste texto, por dentro e por fora, assim como aos corações e às mentes atenciosos que me incentivaram e ajudaram a finalmente publicá-lo em forma de livro.

 

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