Para mercado, tarifaço de Trump “veio mais rigoroso do que o esperado”

Para analistas do mercado, as tarifas recíprocas apresentadas nesta quarta-feira (2/4) pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foram mais rigorosas do que o esperado. O republicano anunciou uma sobretaxa base e universal de 10% sobre todos os países, além de uma medida retaliatória individual para cada nação. Com isso, a taxa efetiva da China foi de 34%; a da Europa, 20%; enquanto a do Brasil, de 10%, o piso dos valores. O Vietnã ficou com 46%.

Para André Valério, economista sênior do Banco Inter, a reação do mercado aponta que as tarifas “colocarão a economia americana em direção à recessão, com os juros de 10 anos recuando fortemente para em torno de 4,10%”.

“O mercado acionário americano também recuou fortemente no after market (negociações depois do fechamento das Bolsas), refletindo essa visão”, diz Valério. “De fato, as tarifas anunciadas foram muito mais fortes do que o que havia sido ventilado durante a semana.”

Para o economista, uma das grandes questões sobre a política tarifária de Trump é justamente seu impacto na economia. “Um estudo do FMI, cobrindo 151 países entre 1963 e 2014 encontrou evidências de que aumentos nas tarifas levam, na maioria das vezes, a uma apreciação da taxa real de câmbio, na mesma magnitude do aumento das tarifas”, afirma.

“Por conta disso, o impacto sobre a balança comercial tende a ser nulo, com as tarifas limitando as importações, tornando-as mais caras, ao mesmo tempo em que a apreciação da taxa real de câmbio torna as importações mais baratas”, acrescenta Valério.

Oscilação do dólar

O economista destaca que essa expectativa de apreciação do dólar foi observada no mercado depois da eleição de Trump, em novembro de 2024. “Entre os dias 6 de novembro, data da eleição americana, e 20 de janeiro de 2025, data da posse de Trump, o dólar, medido pelo índice DXY (que faz uma comparação com moedas de países desenvolvidos), apreciou mais de 4%”, afirma. “Isso na expectativa de que Trump já fosse iniciar seu governo implementando as tarifas.”

Desde então, porém, o cenário mudou. “A condução errática do governo, aliada à visão de que a política tarifária seria universal e significativa, fez o mercado passar a precificar uma maior chance de que a economia americana entre em recessão nos próximos meses, ao passo em que prevalece a visão de que o resto do mundo descole da economia americana, o que levou a uma realocação de capitais saindo do Estados Unidos em direção aos outros países, em especial à Europa e China”, diz. “Com isso, viu-se o dólar, medido pelo índice DXY, depreciar 4,7% desde a posse de Trump.”

Rigoroso, mas esperado

Paula Zogbi, gerente de Research da fintech Nomad, concorda que o “governo americano trouxe medidas duras”. “Trump enfatizou que as medidas serão imediatas e defendeu que foram ‘gentis’”, afirma o analista. “Ele utilizou um tom duro e confirmou os temores do mercado em torno da abrangência das medidas.”

Para o economista, “embora o anúncio tenha como objetivo estimular e expandir a indústria doméstica”, o “mercado observa potenciais pressões inflacionárias e aumentos nos custos, podendo gerar choques negativos para a atividade”.

Quem paga a conta

“Lembrando que quem pagará mais pelos produtos importados não serão os estrangeiros, e sim os americanos”, observa. “A volatilidade deve seguir sendo a tônica do mercado enquanto acompanhamos novos desdobramentos das medidas, com prováveis novas revisões de expectativas para os resultados das companhias por analistas e uma possível continuidade do fluxo financeiro para teses mais defensivas e outras economias globais.”

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