Canadenses boicotam viagens aos EUA em meio a tensões políticas

passaporte visto eua estados unidos (Banco de imagens Unsplash:ConvertKit)

Canadenses estão evitando até escala nos Estados Unidos (Unsplash/ConvertKit)

O que começou como uma queda pontual no número de canadenses viajando para os Estados Unidos agora dá sinais claros de um boicote consolidado. A reação contrária às tarifas e às disputas políticas entre os dois países está impactando diretamente o turismo e a economia local.

No último dia 26 de março, a empresa de dados aéreos OAG divulgou que as reservas de passageiros entre o Canadá e os EUA caíram mais de 70% para os próximos meses, até setembro, em relação ao mesmo período do ano passado. Já em fevereiro, a Statistics Canada registrou uma queda de 23% nas viagens de carro de canadenses retornando dos Estados Unidos.

Reservas canceladas e mudança de rota

De acordo com McKenzie McMillan, consultor de luxo e gerente de relações com fornecedores da The Travel Group, sediada em Vancouver, os impactos vão além dos cancelamentos imediatos. “O problema maior são as reservas futuras. Elas simplesmente desapareceram. Nossa agência não teve um único pedido de viagem de lazer para os EUA recentemente”, afirma.

Enquanto algumas viagens corporativas ainda acontecem, destinos populares como Phoenix e o sul da Califórnia estão praticamente fora do radar dos turistas canadenses. Em vez disso, muitos estão optando por alternativas domésticas, como a região de Newfoundland e os Marítimos, ou destinos internacionais como Europa e México.

O impacto dessa mudança também é sentido nos pequenos negócios que dependem do turismo transfronteiriço. Trina White, gerente geral do The Parkside Hotel & Spa, em Victoria (Colúmbia Britânica), relata que a demanda por balsas entre Victoria e as cidades americanas de Seattle e Port Angeles caiu consideravelmente. “Como cidade fronteiriça, essa queda afeta tanto o nosso lado quanto o de Seattle, com quem temos uma relação comercial forte”, diz White.

Prejuízo bilionário para os EUA

O Canadá é o maior mercado emissor de turistas para os Estados Unidos. Em 2024, os canadenses fizeram 20,4 milhões de visitas ao país vizinho, gerando US$ 20,5 bilhões em receita. Segundo estimativas da U.S. Travel Association, uma queda de 10% nessas viagens pode resultar em uma perda de até US$ 2,1 bilhões. Mas McMillan acredita que o impacto será ainda maior: “Muitos dos meus clientes dizem que o estrago já está feito. No momento, não há vantagem para nós em promover viagens aos EUA.”

Diante da situação, organismos de promoção turística americanos tentam reagir. No estado de Washington, David Blandford, diretor executivo de turismo, admite que a crise está afetando o fluxo de visitantes canadenses. “Eles têm um papel vital na nossa economia turística”, ressalta. Em Montana, os gastos de turistas canadenses caíram 14,2% em janeiro, e a preocupação é crescente.

Em Nova York, onde os canadenses são o segundo maior grupo de turistas internacionais, a diretora da NYC Tourism, Julie Coker, se mantém otimista, mas reconhece os desafios. “Temos relatos de queda nas reservas da Broadway e cancelamentos de operadores que atendem o público canadense. Mas já superamos crises antes e vamos sair dessa mais fortes”, afirma.

Para tentar reverter a tendência, Nova York aposta em uma campanha de hospitalidade com o lema “With Love and Liberty” e organiza eventos para atrair o público canadense, como uma viagem de imprensa em abril coincidente com um jogo de beisebol entre Nova York e Toronto.

Companhias aéreas reduzem voos

Os reflexos do boicote também são sentidos no setor aéreo. Segundo a OAG Aviation, 320 mil assentos foram cortados das rotas entre os dois países até outubro, com reduções mais expressivas nos meses de julho e agosto. A United Airlines anunciou em março que reduziria sua capacidade nos voos para o Canadá devido à baixa demanda. A Air Canada já havia tomado decisão semelhante em fevereiro, diminuindo as rotas para a Flórida, Las Vegas e Arizona. A WestJet também eliminou diversos voos transfronteiriços de sua programação para a primavera e o verão.

Mais do que evitar destinos americanos, muitos canadenses também estão evitando escalas nos EUA. “Temos clientes que costumavam passar por Miami para chegar a Vancouver e agora preferem pernoitar em Toronto. Eles simplesmente não querem pisar nos Estados Unidos”, relata McMillan.

A crise reflete um sentimento mais profundo entre os viajantes. “Nunca vi os canadenses tão irritados, magoados e assustados ao mesmo tempo”, conclui McMillan. O futuro das relações turísticas entre os dois países segue incerto, mas o recado dos turistas canadenses parece claro: por enquanto, os Estados Unidos estão fora dos planos.

Com informações da Travelweekly

 

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