Daniel Kahneman e o Populismo (por Luiz Paulo Vellozo Lucas)

A crise financeira global de 2008, deflagrada pelo mercado de títulos de dívidas imobiliárias de segunda linha (sub prime bonds), nos Estados Unidos, causou desvalorização em cascata no mercado financeiro, quebra de grandes bancos como o Lehman Brothers e uma profunda recessão. O mercado de ações perdeu trilhões de dólares em valor afetando o patrimônio das famílias, fundos de pensão e carteiras de investimentos. Empresas cortaram gastos, demitiram trabalhadores em massa, o consumo despencou e a recessão aprofundou. Os governos ao redor do mundo, através de uma ação coordenada dos seus bancos centrais, liderados pelo Fed norte americano, injetaram muito dinheiro (quantitative easeing) para conter os danos. A recuperação foi lenta.

Daniel Kahneman, psicólogo israelense, foi Prêmio Nobel de economia em 2002, por sua teoria (junto com Amos Tversky) sobre o comportamento humano em matéria econômica. A teoria deles era radicalmente contrária ao princípio das expectativas racionais que fundamenta teoricamente a mística da infalibilidade dos mercados financeiros e a defesa de sua completa desregulamentação. Os seres humanos decidem sob influência de vieses e heurísticas (atalhos mentais) que levam a ilusões cognitivas e grandes erros de avaliação. Como a crise de 2008 demonstrou de forma definitiva, o   comportamento de manada nos mercados financeiros e a irracionalidade dos agentes econômicos acontecem por erros e ilusões cognitivas.

Amos Tversky faleceu em 2006 e no último dia 27 de março, fez um ano que Daniel Kahneman submeteu-se ao procedimento de suicídio assistido na Suíça aos noventa anos. Seu livro “Rápido e devagar: duas formas de pensar” publicado em 2011, mostra que a forma rápida é intuitiva, automática e emocional. Toma decisão com base em padrões e experiências passadas mas é sujeita a erros de avaliação e ilusões cognitivas. A forma devagar é logica, deliberada e esforçada. Analisa informações com cuidado e precisão. É mais lenta e trabalhosa e menos sujeita a erros.

Kahneman e Tversky trabalharam anos para que sua contestação dos principios psicológicos da teoria econômica fosse ouvida nos fóruns de economia. A história e, principalmente, a crise de 2008 comprovaram que eles tinham razão. A verdade apareceu e a economia comportamental tornou-se um ramo de pesquisa aceito e respeitado.

O debate político no mundo digital, nas redes sociais em particular, em muito se assemelha aos mercados financeiros desregulados.   O discurso político populista é elaborado para ser avaliado pelo modo rápido de pensar. Narrativas, exemplos, metáforas e situações hipotéticas são construídas e costuradas para fazer as pessoas se apaixonarem pelos heróis, odiarem os vilões e, principalmente, acreditarem piamente na mitologia populista. Sua força está apenas na verossimilhança e na capacidade de encantamento da narrativa. Conspirações, difamações e mentiras são ingredientes válidos. A realidade é apenas um dos mundos possíveis.

A ascenção do populismo de extrema direita em todo o mundo, tendo Donald Trump e os bilionários das Big Techs `a frente, reforça o paralelo entre os desastres causados por mercados financeiros desregulados e a força política da mensagem populista.  No ambiente de vale tudo das redes sociais, as Big Techs resistem `as tentativas de regulação enquanto  lucram com o caos. O pensamento humano em modo devagar, fundamental para a ciência e para a evolução da humanidade ficou fora de moda. Sob o Trumpismo ficou quase proibido.

Estou convencido que o populismo vai fracassar mas não sem antes fazer um estrago gigantesco em termos de destruição institucional e de valores civilizatórios. Como na crise financeira de 2008, o mundo poderá pedir ajuda ao Estado e a suas instituições para nos tirar da desordem e da desesperança. Contudo, acho que levará algum tempo.

O Brasil pode chegar nas eleições de 2026 sem os dois lideres populistas que ainda hoje polarizam o país mas que estão perdendo terreno no imaginário da população. Os eleitores de Bolsonaro e Lula estão arrependidos como mostrou a pesquisa da Tendências publicada recentemente no Estadão.

Precisamos nos livrar desta ilusão cognitiva que fez o Brasil andar pra trás.

 

*Engenheiro de Produção. Mestrado em Desenvolvimento Sustentável. Ex-prefeito de Vitória-ES. Membro da ABQ- Academia Brasileira da Qualidade.

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