Dólar cai 1,71% após tarifas de Trump e acirra tensões globais

dólar (Banco de imagens Pexels/John Guccione)

O pacote de tarifas gerou forte aversão ao risco nos mercados globais (Pexels/John Guccione)

O dólar caiu 1,71% nesta quinta-feira (3), sendo cotado a R$ 5,601 às 13h20 (horário de Brasília), após o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump anunciar um novo pacote de tarifas sobre importações de países com grandes superávits comerciais com os EUA. A medida gerou forte aversão ao risco nos mercados globais e provocou queda no rendimento dos títulos do Tesouro americano, além de um recuo expressivo nas bolsas de valores.

A nova política tarifária estabelece sobretaxas de até 30% para produtos vindos da Ásia, incluindo China, Vietnã e Taiwan, enquanto mercadorias da Europa, como as da Alemanha e da Irlanda, terão tarifas de até 20%. Para os países da América Latina, onde os EUA mantêm superávit comercial, as taxas foram mais brandas, com um percentual fixado em 10%.

Os aumentos nas tarifas serão implementados de forma escalonada. A tarifa universal de 10% entra em vigor no dia 5 de abril, enquanto as sobretaxas específicas para cada país começam a valer em 9 de abril. Em resposta, China e União Europeia já prometeram adotar medidas retaliatórias, o que pode agravar a tensão comercial global.

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Para Paulo Gala, economista-chefe do Banco Master, a estratégia protecionista de Trump pode ter um efeito contrário ao esperado, prejudicando a própria economia americana. “A ideia de proteger a indústria americana pode acabar provocando estagflação: uma combinação de crescimento econômico baixo com inflação elevada. Os custos de produção nos EUA são muito mais altos do que na Ásia, e a imposição de tarifas não resolverá essa questão estrutural”, disse.

A insegurança gerada pela medida levou investidores a anteciparem um cenário de estagnação econômica nos Estados Unidos, com impactos na política monetária. “O dólar foi o grande perdedor dos eventos da noite passada”, afirmou Sonja Marten, chefe de pesquisa monetária do DZ Bank, à Bloomberg TV. “Agora, o foco está nas consequências econômicas dessas tarifas para os próprios EUA.”

A incerteza se reflete nas apostas do mercado financeiro. Operadores de contratos futuros de juros preveem agora uma chance de 80% de que o Federal Reserve (Fed) reduza a taxa de juros até junho, na tentativa de minimizar os impactos econômicos da política tarifária. A Bloomberg apontou que o Deutsche Bank vê risco de uma “crise de confiança mais ampla” no dólar, enquanto analistas do Citigroup sugerem que o euro pode se fortalecer, podendo atingir a cotação de US$ 1,15 nos próximos meses.

Real ganha força no mercado cambial

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O desempenho positivo do real está ligado ao fato de o Brasil ter ficado relativamente menos exposto às tarifas de Trump (Freepik/Mateus Andre)

Apesar da volatilidade global, o real apresentou valorização nesta quinta-feira, destoando de outras moedas emergentes. O dólar índex, que mede a força da moeda americana em relação a outras divisas, caiu 2% e atingiu 101,6 pontos, enquanto moedas como o franco suíço, o iene japonês e o euro ganharam força. Já o peso mexicano seguiu a tendência de queda, acompanhando o movimento global de aversão ao risco.

Leonel Mattos, analista de Inteligência de Mercado da Stonex, atribui o desempenho positivo do real ao fato de o Brasil ter ficado relativamente menos exposto às tarifas de Trump do que outras economias. “Enquanto China e União Europeia enfrentam sobretaxas agressivas, as tarifas sobre o Brasil foram mais moderadas, o que fortaleceu a posição do real no curto prazo”, disse.

José Faria Júnior, da Wagner Investimentos, orienta empresas importadoras a manter estratégias de hedge para evitar oscilações cambiais bruscas. Já para exportadores, a recomendação é aguardar antes de converter dólares, dado que o cenário pode sofrer novas reviravoltas caso a tensão comercial se agrave.

Brasil adota tom cauteloso, mas não descarta retaliação

Presidente Lula (Ricardo Stuckert/PR)

Luís Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil (Ricardo Stuckert/PR)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou nesta quinta-feira que o Brasil tomará todas as medidas necessárias para proteger a economia nacional. Durante o evento “Brasil Dando a Volta por Cima”, organizado pelo governo federal, Lula afirmou que o país “respeita todos os países, do mais pobre ao mais rico, mas exige reciprocidade”.

O governo brasileiro estuda a possibilidade de aplicar medidas equivalentes contra os EUA, baseando-se na Lei da Reciprocidade, aprovada pelo Congresso na quarta-feira (2). A legislação permite que o Brasil adote regras comerciais similares às impostas por outros países. “O protecionismo não cabe mais no mundo moderno”, disse Lula.

Embora o Brasil tenha sido um dos países menos afetados pelas tarifas, especialistas alertam para possíveis impactos indiretos, especialmente no agronegócio. O setor pode ganhar competitividade caso a China retalie os EUA com tarifas sobre produtos agrícolas americanos, favorecendo exportadores brasileiros. Por outro lado, uma desaceleração global pode reduzir a demanda por commodities, pressionando preços e afetando setores estratégicos da economia nacional.

Enquanto a situação evolui, o mercado segue atento aos desdobramentos das retaliações anunciadas por China e União Europeia. Analistas afirmam que qualquer nova movimentação pode mudar rapidamente a dinâmica cambial e afetar o equilíbrio econômico global.

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