Tarifas de Trump significam ruptura no comércio internacional, dizem especialistas

A elevação de tarifas sobre importações anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, representará uma ruptura para alguns princípios estabelecidos do comércio internacional. Economistas ouvidos pelo InfoMoney afirmam ainda que mandatário não deve colher os retornos esperados em investimentos, empregos e redução da dívida pública com as medidas.

Durante pronunciamento na tarde desta quarta-feira (2) na Casa Branca, Trump anunciou, com um cartaz em mãos, uma lista de países para os quais os impostos de importação aumentariam nos Estados Unidos. A base do cálculo, afirmou, teria como base “a taxa combinada de todas as suas tarifas, barreiras não monetárias e outras formas de trapaça”.

Além das tarifas variáveis para determinados países, o presidente americano apresentou um aumento de 25% sobre todas as importações de veículos e peças de veículos.

Segundo o coordenador do Centro de Negócios Globais da FGV e ex-secretário do Comércio Exterior do Brasil, Lucas Ferraz, a distinção de tarifas sobre importações para diferentes países representa um rompimento com o chamado “princípio da nação mais favorecida”.

“É o princípio pelo qual se cobra uma tarifa para um determinado produto de um determinado membro da Organização Mundial do Comércio (OMC) e essa tarifa tem que ser a mesma cobrada para qualquer outro membro, a menos que você tenha um acordo de livre comércio”, explica em entrevista ao InfoMoney.

Desde sua primeira gestão, o presidente americano já havia feito movimentos para distinguir os impostos praticados contra a China. Desta vez, no entanto, ele estendeu a abordagem para uma lista de países para os quais o governo americano acredita que deva haver um nível de reciprocidade.

A tabela ostentada por Trump durante seu discurso exibia uma lista de 25 países, para os quais a elevação dos impostos sobre importações pelos Estados Unidos varia de 10% a 49%.

Lista de tarifas recíprocas

País Tarifa cobrada dos EUA* (%) Tarifa recíproca (%)
Reino Unido 10 10
Brasil 10 10
Cingapura 10 10
Chile 10 10
Austrália 10 10
Turquia 10 10
Colômbia 10 10
Israel 33 17
Filipinas 34 17
União Europeia 39 20
Japão 46 24
Malásia 47 24
Coreia do Sul 50 25
Índia 52 26
Paquistão 58 29
África do Sul 60 30
Suíça 61 31
Taiwan 64 32
Indonésia 64 32
China 67 34
Tailândia 72 36
Bangladesh 74 37
Sri Lanka 88 44
Vietnã 90 46
Camboja 97 49

*inclui manipulação de moeda e barreiras comerciais

A base para o cálculo do que o presidente americano nomeou “tarifa recíproca” é a taxa média de impostos sobre a importação de produtos americanos praticada por esses países dividido por dois. Economistas com quem InfoMoney conversou avaliam que os cálculos, bem como as aplicações dos impostos, despertam dúvidas.

De acordo com a Casa Branca, a taxa média de impostos de importação praticada por outros países levou em conta tarifas e barreiras não tarifárias. “Barreiras não tarifárias é um grupo enorme, de classificações. Pode se tratar de barreiras técnicas, barreiras sanitárias, licenciamento não automático de importações”, diz Ferraz.

  • Leia também: Ibovespa e dólar futuros têm montanha-russa com fala de Trump; o que mercado achou?
  • Leia também: Como tarifas de Trump ao Vietnã devem deixar os tênis da Nike e Adidas mais caros
  • Leia também: Confira lista completa por país das tarifas recíprocas cobradas pelos EUA

Seria então calculada uma estimativa do equivalente destas barreiras burocráticas em um número. A soma entre barreiras tarifárias e não tarifárias foi posteriormente dividido pela metade: “Porque somos gentis”, justificou o presidente americano.

Para a pesquisadora associada do FGV Ibre e professora da UERJ Lia Valls, ainda há dúvidas sobre como o resultado do cálculo será efetivamente aplicado sobre as importações. “Não fica claro, porque aquilo era uma média, se vai se aplicar igualmente a todos os produtos ou se eles farão uma diferenciação pra chegar àquela média”, pondera.

“Pode ser que seja igual mesmo pra todos os produtos, o que seria algo muito diferente do que já foi feito nos Estados Unidos”, apontou a pesquisadora em entrevista ao InfoMoney.

Impostos, dívida pública e emprego

No início do seu discurso na quarta-feira, Trump afirmou que as medidas propostas permitiriam “usar os trilhões e trilhões de dólares para reduzir seus impostos e reduzir a dívida nacional, e tudo acontecerá bem depressa”. Projeções da administração são de que sejam levantados US$ 6 trilhões em impostos sobre importações nos próximos 10 anos.

Desde a campanha eleitoral, o presidente americano adotou a imposição de tarifas sobre importações como uma das principais respostas ao desempenho econômico, em especial para a criação de novos empregos nos Estados Unidos.

Entre os principais países taxados pelos Estados Unidos estão justamente os asiáticos, para onde migraram boa parte das plantas industriais americanas nas últimas décadas. Com as tarifas, a expectativa é melhorar a competitividade do que é produzido dentro dos Estados Unidos.

“Se a gente olhar o impacto da primeira administração Trump, sabemos que a evidência empírica é ruim. Ou seja, a proteção conferida ao setor siderúrgico, a guerra tarifária com a China, não geraram mais empresas industriais”, diz Ferraz. “Isso comprometeu a competitividade das exportações industriais americanas.”

A expectativa é que a nova política tarifária promova uma pressão inflacionária nos EUA, já que os produtos importados consumidos pelos americanos devem ficar mais caros, processo que deve se somar a uma taxa de crescimento menor no país.

“A receita de importação não necessariamente vai aumentar a ponto de compensar a redução de impostos que ele deseja fazer, em relação, principalmente, a imposto de renda”, diz Valls. Significa dizer que a arrecadação pode não ser capaz de lidar com a dívida pública americana, hoje superior a US$ 30 trilhões, como espera o presidente americano.

O Brasil e o mundo

Para o Brasil, as notícias sobre as tarifas de Trump foram recebidas por analistas como “melhores do que o esperado”. Um relatório publicado pelo time de macroeconomia da XP Investimentos avalia que a interpretação inicial é de que as tarifas aplicadas ao Brasil devem ficar dentro do patamar mínimo, com exceção de setores para os quais Trump já impôs tarifas, como aço e alumínio.

Em fevereiro, o presidente americano elevou os impostos sobre importações dos metais para 25%, em uma medida que inclui o Brasil.

Como efeito das taxas em menores proporções, o Brasil pode ganhar uma vantagem diante dos concorrentes internacionais no acesso ao mercado americano, um aumento artificial de competitividade. Por outro lado, uma resposta chinesa à Washington abre oportunidades também no país asiático.

O governo brasileiro lamentou a elevação das tarifas imposta na quarta-feira, bem como aquelas já publicadas anteriormente aos setores de aço e alumínio. Em nota conjunta, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e o Ministérios das Relações Exteriores, afirmaram que a medida “viola os compromissos dos EUA perante a Organização Mundial do Comércio e impactará todas as exportações brasileiras de bens para os EUA”.

Para a economia global o cenário é menos otimista. Até antes do anúncio, analistas acreditavam que o pior cenário seria o de uma tarifa única elevada para todos os países, mas o que se apresentou foi um cenário com maior potencial de distorções no comércio exterior. A expectativa, segundo Ferraz, é de um enfraquecimento das cadeias de produção globais, bem representadas pelo aumento das tarifas sobre o mercado asiático.

Em seu primeiro e segundo mandato, Trump já havia elevado as tarifas sobre a China em 40%. Com este último aumento, a tarifa deve chegar a 75%.

Os excedentes de produção de regiões como Ásia e Europa devem causar um aumento global do protecionismo para evitar a invasão de produtos estrangeiros. “É o que chamamos de dilema dos prisioneiros. O mundo vai ser mais fechado“, diz Ferraz.

Segundo um documento publicado pela Casa Branca após o pronunciamento de Trump, a tarifa básica de 10% entra em vigor a partir do próximo sábado (5), enquanto as individualizadas passam a ser cobradas na próxima quarta-feira (9).

Ainda não está claro se o efeito vale para contratos cujos pagamentos estavam programados. Especialistas imaginam que os efeitos globais passem a ser sentidos no segundo semestre.

The post Tarifas de Trump significam ruptura no comércio internacional, dizem especialistas appeared first on InfoMoney.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.