Adolescência – O ódio às mulheres (Por Bruna Camilo e Camila Galetti)

A série britânica Adolescência tem sido amplamente elogiada por sua abordagem realista dos temas que se propõe a discutir. O uso de tomadas contínuas cria uma sensação de imediaticidade, aumentando o impacto emocional da história. Críticos e espectadores a consideram um divisor de águas nas plataformas de streaming, com elogios à sua narrativa envolvente, técnicas de gravação e atuações convincentes. No entanto, para além das técnicas e interpretações, o conteúdo dos episódios denuncia uma epidemia que tem invadido a vida dos meninos e homens: o ódio contra meninas e mulheres. Embora não seja é possível datar quando masculinistas e outros grupos misóginos começaram a se organizar, fato é que, com a internet, inauguramos outra forma de acesso à informação, organização de pessoas e, também, de ódio e desinformação. Contudo, precisamos compreender algo que é anterior à internet: a socialização masculina.

A socialização masculina é carregada de violência, performances cis e heteronormativas. Desde o momento em que se descobre que o bebê possui um pênis, a sociedade projeta sobre ele expectativas e comportamentos que reforçam a masculinidade hegemônica, como se a genitália determinasse, de forma incontestável, sua identidade de gênero. O que chamamos aqui de masculinidade hegemônica é um conjunto de comportamentos e características comuns perpetuadas por meio da estrutura patriarcal. Assim, homens são socializados a não chorar, expor agressividade, reafirmar constantemente uma postura de força e controle e muito menos expor seus sentimentos e fragilidades, consolidando um modelo de masculinidade que oprime tanto a eles próprios como àqueles ao seu redor.

Embora o personagem principal não esboçasse nenhuma ação violenta, a internet mostrou a ele um espaço de organização do ressentimento por meninas e, posteriormente, a violência foi escancarada e, ao mesmo tempo, silenciosa. Essa prática contra si e contra os “inimigos” é uma forma, se não a principal, de demonstrar sua virilidade, potência, pertencimento a grupo, mas, principalmente, vingança contra quem não se submete. O sociólogo Daniel Welzer-Lang apontou que a legitimidade de um homem em seu grupo não se restringe à negação da feminilidade, mas também em sua contundente depreciação. Diante disso, é possível afirmar que o homem, em busca de seu espaço de pertencimento, performe misoginia como passaporte de aceitação, socialização e respeito perante os demais. A forma como os homens socializam e constroem suas identidades afeta não somente a si, mas, sobretudo, as mulheres, que se submetem ao masculino por meio da violência.

A socialização misógina entre adolescentes homens é um tema complexo e preocupante, especialmente quando associado à cultura incel e à chamada “machosfera”. Essas comunidades online promovem ideologias que frequentemente justificam o ódio contra as mulheres e reforçam estereótipos de masculinidade tradicional, que podem levar a comportamentos perigosos e violentos. A cultura incel, ou seja, os celibatários involuntários, é composta por homens ditos heterossexuais, majoritariamente jovens, que se sentem infelizes e frustrados por causa da falta de relações sexuais ou românticas com meninas e mulheres. Eles frequentemente se reúnem em fóruns online, onde discutem temas misóginos e a ideia de que são vítimas de uma sociedade que lhes nega o direito ao sexo. Ou seja, conforme o pensamento incel, é responsabilidade das mulheres a dificuldade em socializar.

A série não apenas denuncia a ascensão do ódio contra meninas e mulheres, mas também nos leva a questionar suas raízes. Para entender como esse fenômeno se estrutura e se perpetua, é essencial voltar ao ponto de partida: a forma como os meninos são socializados.

A relação entre a internet e a misoginia cometida por jovens é marcada pela amplificação de discursos de ódio, normalização de estereótipos de gênero e monetização de conteúdos tóxicos, fatores que reforçam a violência simbólica e física contra mulheres. Redes sociais, plataformas de vídeos e de mensagens se tornaram ferramentas fundamentais para a amplificação da misoginia facilitando a disseminação de ideias que violam os direitos das mulheres. A misoginia tem se tornado um produto rentável por meio de cursos, canais monetizados e comunidades que espalham a narrativa de vitimização masculina. Algoritmos têm entregado conteúdos misóginos para meninos e jovens, seja em formato de humor, informações que geram curiosidade ou que despertam algum sentimento. Dessa forma, são alimentados por uma enxurrada de vídeos e postagens que os fazem se sentirem acolhidos, compreendidos e pertencentes a um grupo, nesse caso, de homens e meninos ressentidos.

A internet enquanto um campo de disputa sem sido uma arena de batalhas nesse sentido. De um lado grupos misóginos e masculinistas cooptando meninos e homens, do outro a busca pela disseminação de informações sobre educação, direitos humanos, combate às violências e desinformações. Mas, afinal, existe ganhador nessa batalha? O perdedor já temos, a sociedade. Viver em uma sociedade patriarcal estruturada no racismo, machismo e outras violências é secularmente um desafio. Quando essa estrutura recebe o apoio das tecnologias, nos deparamos com desafios ainda mais difíceis de lidar. Como monitorar nossos jovens sem sufocá-los? Tudo é responsabilidade da escola e da família?

bell hooks nos lembra que para criar uma criança precisamos de toda uma comunidade. Sim, é necessário compreendermos que viver em coletivo é nos responsabilizarmos coletivamente por todos e todas, para além dos núcleos familiares. No entanto, o neoliberalismo mina essa perspectiva ao promover o individualismo como ideal, levando à precarização das vidas sob a falsa promessa de uma prosperidade alcançada unicamente pelo esforço pessoal. Essa lógica ignora as desigualdades estruturais e desresponsabiliza o coletivo, tornando cada indivíduo o único responsável por seu sucesso ou fracasso.

Vemos essa dinâmica refletida nas escolas retratadas em “Adolescência”: professores exaustos e sobrecarregados, alunos ansiosos, agitados e frequentemente rotulados como “casos perdidos”. O sistema educacional, operando dentro da lógica neoliberal, não oferece suporte adequado para docentes nem para estudantes, priorizando desempenho e produtividade em detrimento do bem-estar e da formação humana. Dessa forma, educar jovens nesse contexto significa prepará-los para uma vida adulta marcada pelo esgotamento, pelo ressentimento e, muitas vezes, pela violência. Pensar em soluções, portanto, exige muito mais do que ajustes pontuais; requer uma reflexão profunda sobre o modelo de sociedade que queremos construir. Uma sociedade verdadeiramente comprometida com o bem-estar coletivo deve superar a lógica neoliberal e recuperar a noção de responsabilidade compartilhada na educação e na vida em comunidade.

 

Bruna Camilo é doutora em Sociologia pela PUC-Minas. Camila Galetti é doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília

Artigo transcrito do Le Monde Diplomatique Brasil +

Adicionar aos favoritos o Link permanente.