‘Lugar de homem é onde ele quiser’: conheça a história de Jairo Serpa

Cuidar da casa, dos filhos, cozinhar, fazer crochê…já foram, um dia, atividades exclusivamente das mulheres. Cada dia mais, os homens vão assumindo funções em casa e dividindo as tarefas com as mulheres. O apresentador Rodrigo Hilbert chama a atenção do Brasil há anos por fazer exatamente essas tarefas, e ir além: homens e mulheres podem e devem exercer as mesmas funções em casa, no trabalho e na vida.

Mas, antes mesmo de o apresentador fazer sucesso com essas atividades, um morador de Conceição do Castelo já era conhecido por cuidar da casa, dos filhos, fazer pães, ser manicure e trabalhar fora. Aos 69 anos, Jairo Antônio Serpa sempre mostrou que as funções do lar podem ser facilmente feitas por homens.

História de vida

Surdo de nascença, Jairo também não fala e não sabe ler e nem escrever. Comumente usada no mundo, a língua de sinais não é uma realidade para ele e sua comunicação é feita basicamente por mímica e sinais próprios. Hoje, aposentado, pai de três filhos e divorciado, ele segue fazendo o que sempre gostou na vida: as unhas de suas clientes, seus pães que perfumam a rua e cuidar de sua casa.

Contar a história de Jairo é mostrar como devemos ser gratos por todos os dias vividos, e como ele é um exemplo de determinação e superação. Sempre com um sorriso no rosto, ele gosta de receber as pessoas e sabe fazer isso muito bem. Quanto à comunicação? Não é difícil entendê-lo e compreendê-lo, já que ele sempre encontrou formas de se comunicar facilmente com a família e amigos.

Quem nos acompanhou na entrevista foi seu filho Jaquesson Serpa, conhecido como ‘Branco’, um dos gêmeos, que hoje tem 40 anos. A comunicação entre os dois é leve e se conhecem e se entendem pelo olhar. É uma comovente e bem-sucedida relação entre pai e filho. Mas, para entender a relação, precisamos contar a história de Jairo!

Superação

Até os 15 anos, Jairo morou com a família na comunidade de Ribeirão do Meio, no interior de Conceição do Castelo. Era uma época difícil e de pouco conhecimento, mas ele conseguiu estudar até o Ensino Fundamental, e não aprendeu a língua de sinais. Naquele tempo isso não importava muito. Ele conseguia se comunicar com os pais e com os irmãos.

Quando se mudaram para a sede do município, com receio de o filho se sentir sozinho, a mãe passava mais tempo com ele. “A minha avó o tratava como uma menina, por conta mesmo dessa dificuldade dele de se comunicar. Ele logo aprendeu a fazer crochê, cozinhar e cuidar da casa”, conta o filho.

Jairo era o caçula dos irmãos e pouco a pouco foi vendo-os se casarem. Não demorou muito para que ele também despertasse esse interesse em ter sua própria família. “Nessa época, ele conheceu nossa mãe, e com 25 anos se casou. Eles tinham um relacionamento muito próximo, e era um casal que chamava a atenção, eram admirados”, continua ‘Branco’.

Jairo com os filhos gêmeos, à esquerda, Jaquesson Serpa, o ‘Branco’, e à direita, Jeferson Serpa, o ‘Preto’ (Foto: Alissandra Mendes)

Os dois tiveram três filhos: Deividd Junior Serpa, de 44 anos, e os gêmeos Jaquesson Serpa (Branco) e Jeferson Serpa (Preto), de 40 anos, e é apaixonado por suas duas netas. “Eles tiveram problemas no relacionamento e se separaram. Minha mãe foi embora e ficamos com nosso pai. Naquela época, eu tinha 11 anos e nosso pai cuidou muito bem de nós. Ele já cuidava da casa e dos meus irmãos durante o casamento, e depois ele continuou. Nessa época, meus avós ainda eram vivos e dava o suporte que ele precisava para cuidar da casa e dos filhos”, explica.

Dedicação e comprometimento

Com 18 anos, Jairo começou a trabalhar na Prefeitura de Conceição do Castelo como auxiliar de serviços gerais. Ele permaneceu no emprego por 41 anos e, em 2015, aos 59 anos, se aposentou do serviço público.

Paralelo ao emprego, com 27 anos ele aprendeu a fazer unhas. “Ele viu outra manicure, se interessou e ela o ensinou, e desde então ele faz unhas. Ele tem as clientes fixas e isso ele não pensa em parar de fazer, pois ele gosta muito”, disse o filho. E as clientes de Jairo não abrem mão do seu serviço e ele mantém as mesmas há anos.

O crochê ele aprendeu cedo com a avó. Em um determinado período, ele chegou a vender as peças após realizar uma exposição na Casa do Artesão do município. Ao entrar em sua casa, é fácil encontrar seus trabalhos na decoração, seja na sala, no quarto ou na cozinha, o capricho com as peças de crochê chamam a atenção.

Jairo aprendeu a fazer crochê com a avó (Foto: Alissandra Mendes/Aqui Notícias)

Outro fato que chama a atenção na casa de Jairo é a limpeza e a organização. Tudo é impecável e extremamente limpo. A decoração de crochê dá o toque final de todo o seu capricho.

Perguntado sobre fazer essas atividades, a resposta foi imediata: “Ele vê como natural. Ela sabe distinguir a função do homem e a função da mulher, mas nesse caso, ele acredita que seja uma tarefa tanto do homem quanto da mulher. Ele não tem e nunca sofreu nenhum tipo de preconceito por conta disso e nos criou para entendermos que isso é natural”, pontua Jaquesson.

Vida longe de preconceitos

Mesmo com a surdez, Jairo leva a vida de forma normal e mantém alguns hábitos em sua rotina, como: ir ao supermercado, ir à academia, caminhar. “Ele não tem dificuldade nenhuma de comunicação. Vai sozinho ao supermercado e consegue comprar e pagar normalmente, fica na rua sozinho, gosta de sair com amigos ou sozinho. É muito bom de matemática e adora fazer academia e suas caminhadas”, garante o filho.

Para Jaquesson, seu pai sempre foi uma pessoa feliz. “Ele vive rindo e brincando. Gosta de assistir novelas e filmes na TV. Há uns anos, ele tentou um novo relacionamento, mas não deu certo. Isso não fez ele se sentir inferior ou sozinho, ele é uma pessoa muito feliz e é apaixonado pelas netas. E eles se comunicam muito bem”, pontua.

Exemplo

Atualmente, Jairo mora sozinho, sua rotina começa às 5h40, quando vai para academia, e ele garante que essa é a melhor parte do seu dia. Quando volta para casa, lava roupa, cuida da limpeza e faz almoço. Mesmo não morando com os filhos, eles mantêm a rotina de almoçarem juntos todos os dias. À tarde, ele tira um tempinho para um cochilo e não abre mão disso. Assim, quando acorda, vai fazer seu crochê. No fim do dia, faz sua caminhada e termina o dia assistindo TV.

“O meu pai é nosso grande exemplo. Ele nunca colocou nenhuma dificuldade acima de algo em sua vida. Meu pai é feliz, faz as pessoas em sua volta felizes e temos muito orgulho de tudo que ele fez por nós e que continua fazendo. Ele nos ensinou a lição básica da vida: não existe tarefa de homem ou tarefa de mulher, existe tarefa do lar e os dois podem fazer tranquilamente”, completa o filho.

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