O futuro da interação humana (Por Ionara Silva)

No início deste mês, a Meta Plataformas, empresa dona do Facebook, do WhatsApp e do Instagram, anunciou avanços significativos em um sistema de deep learning capaz de traduzir sinais cerebrais em texto digitado. Essa inovação promete transformar radicalmente a maneira como interagimos com dispositivos, tornando possível a comunicação sem o uso de teclados ou comandos de voz.

A ideia de transformar pensamentos em texto pode revolucionar a comunicação humana, especialmente para pessoas com algum tipo de deficiência física ou que perderam a capacidade de fala e movimento. Com a promessa de um método não invasivo, a empresa divulgou os resultados dos primeiros testes, afirmando ter desenvolvido um sistema chamado Brain2Qwerty, que interpreta sinais cerebrais sem intervenção neurocirúrgica.

O teste foi realizado com 35 voluntários saudáveis, como afirmou a Meta, utilizando eletroencefalografia (EEG) e magnetoencefalografia (MEG) enquanto digitavam frases memorizadas em um teclado QWERTY. A análise sugere que o sistema capta tanto comandos motores quanto processos cognitivos. Caso o projeto se concretize nos próximos anos e venha a ser acessível, a forma como nos comunicamos hoje poderá ser profundamente modificada.

Embora a ideia pareça saída de um filme de ficção científica, os primeiros testes já demonstraram um nível avançado de precisão na conversão de pensamentos em texto. No entanto, a implementação dessa tecnologia em larga escala enfrentará desafios técnicos significativos, já que a captação de sinais cerebrais requer equipamentos sofisticados e um nível de personalização para cada usuário, o que poderá limitar sua adoção e comercialização generalizada.

Mesmo parecendo tão distante da nossa realidade, vamos lembrar que Mark Zuckerberg e sua equipe são bem engenhosos. Tanto que a forma como interagimos nas redes sociais hoje se deve ao trabalho iniciado no início dos anos 2000, quando ele ainda era um jovem estudante. Imagine agora que é um dos homens mais poderosos do mundo?

O que está em questão aqui não é o avanço da ciência e da tecnologia na busca por soluções que mudem a vida das pessoas, sobretudo daquelas que se encontram em condições de saúde vulneráveis ou até dependentes de seus familiares e redes de apoio para questões básicas da vida, como comunicar onde sentem dor, por exemplo.

O mais curioso não é a pesquisa em si, mas o fato de uma big tech anunciar, em seu próprio site, a propriedade de um recurso que poderá ser útil para milhões de pessoas e que conta com verba pública da União Europeia para sua fase inicial, conforme consta nos agradecimentos do artigo publicado pela equipe de pesquisa.

“Esta pesquisa é apoiada pelo Governo Basco por meio do programa BERC 2022-2025 e financiada pela Agência de Pesquisa do Estado Espanhol”. Partes deste trabalho foram realizadas no âmbito do programa de pesquisa e inovação Horizonte 2020 da União Europeia sob o acordo de subvenção Marie Skłodowska-Curie”.

Ora, curiosa que sou, a pergunta que faço é: por que um estudo tão relevante para o futuro da comunicação humana e financiado com dinheiro público é anunciado por uma empresa? Caso o Brain2Qwerty venha a se tornar uma realidade, quais garantias teremos de que a Meta, que já coleta e minera uma parte significativa da nossa atividade online, não vai andar lendo nossos pensamentos por aí do jeito que bem entender?

Eu, que sou fofoqueira, fiquei preocupada. Só Deus e as Deusas sabem o que se passa na minha mente neurodivergente. Imagine um dispositivo lendo meus pensamentos e transmitindo-os em um sistema qualquer, tipo smartwatches ou em um telão… Rindo de nervoso.

Brincadeiras à parte, minha proposta aqui é pensarmos, enquanto sociedade, nos impactos e consequências do desenvolvimento de tecnologias que prometem melhorar nossas vidas, mas que, quando são capitaneadas por grandes corporações, correm o risco de se tornarem ferramentas de controle, manipulação e vigilância e armas de guerra. Nenhum desenvolvimento tecnológico é neutro ou visa apenas soluções para o nosso bem-estar social.

Há sempre interesses escusos e financeiros, práticas antiéticas disfarçadas de discursos de esperança num mundo mais igualitário. No entanto, a própria Internet, as redes sociais e tudo o que temos visto até aqui quando se trata de comunicação mediada acentuaram o que há de mais vil no ser humano.

Promover a literacia digital deve ir muito além de ensinar pessoas a ligarem um computador ou enviar um e-mail. Requer um compromisso dos Estados, das empresas e da sociedade como um todo de modo a estimular o pensamento crítico sobre toda e qualquer chamada “evolução”. Que tal começar a falar na sua roda de amigos sobre este assunto? Haja terapia.

 

(Transcrito do PÚBLICO-Brasil)

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