1º de março: Data em que duas guerras chegaram ao fim após deixarem cicatrizes pela região

Duas guerras, a mesma data final e um impacto profundo: o dia 1º de março marca o fim de dois conflitos que não apenas moldaram o Brasil e a América do Sul, mas também transformaram o destino das colônias alemãs no Rio Grande do Sul. Enquanto a Guerra dos Farrapos (1835-1845) dividiu a província e freou a imigração iniciada em 1824, a Guerra do Paraguai (1864-1870) levou jovens colonos para campos de batalha de onde muitos não retornaram.

Valdir Ludwig contempla a "sepultura" em homenagem a Peter Ludwig | abc+



Valdir Ludwig contempla a “sepultura” em homenagem a Peter Ludwig

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial

A Guerra dos Farrapos, também conhecida como Revolução Farroupilha, foi o mais longo levante contra o Império do Brasil. Iniciada em 1835, a revolta de caráter republicano opôs fazendeiros e militares gaúchos ao governo imperial, insatisfeitos com a cobrança de impostos e a falta de autonomia da província. Após quase dez anos de conflitos, o movimento chegou ao fim em 1º de março de 1845, com o Tratado de Ponche Verde, que selou a reincorporação da região ao Império e concedeu anistia aos revoltosos.

Já a Guerra do Paraguai envolveu Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai governado por Solano López. O maior conflito da América do Sul contou com grande participação de soldados gaúchos (e alemães) e devastou o país vizinho. A guerra se estendeu por seis anos e terminou em 1º de março de 1870, quando López foi morto em combate, marcando a vitória da Tríplice Aliança.

Morte de Peter Ludwig e a tragédia no Arroio Cadeia

A primeira leva de imigrantes alemães chegou ao Brasil, a partir de São Leopoldo, cerca de uma década antes de ter início a Revolução Farroupilha. O conflito dividiu os colonos entre os que apoiaram as tropas imperiais e aqueles que apoiavam os farrapos. Desta forma, a Guerra dos Farrapos, iniciada em 1835, impactou de sobremaneira a região, socialmente e economicamente. Tanto que até a imigração foi freada durante a revolução.

Os efeitos da guerra se espalharam por todo o Rio Grande do Sul, atingindo populações que, muitas vezes, sequer desejavam se envolver na guerra. Entre elas estavam os imigrantes alemães, que, ao se estabelecerem na província, tornaram-se parte de uma disputa que não era originalmente sua. Bandoleiros provocavam intrigas entre os colonos e os saqueavam num período em que eles criavam suas primeiras estruturas, em termos de roça e de gado.

Um dos episódios mais chocantes da época foi o assassinato de Peter Ludwig e outros três colonos no encontro do Arroio Cadeia com o Arroio Feitoria, no limite entre Lindolfo Collor e São José do Hortêncio. Peter Ludwig, que fazia o transporte de mercadorias, foi emboscado e morto por não querer se juntar à guerra.

O alemão havia chegado ao Brasil em 1829, estabelecendo-se na região do Arroio Cadeia, próximo à atual Lindolfo Collor. Como muitos colonos, ele buscava uma nova vida longe da instabilidade europeia e da miséria que assolava seu país de origem. No entanto, doze anos depois, viu-se envolvido em outro cenário de guerra: a Revolução Farroupilha. Diferente de alguns compatriotas que aderiram ao lado imperial, Peter optou pela neutralidade, decisão que, para os farroupilhas, foi vista como resistência.

De acordo com registros históricos disponibilizados por seu tetraneto, Valdir Ludwig (hoje prefeito de Ivoti), Peter foi pressionado a apoiar a revolta, mas recusou justificando que os imigrantes haviam sido convidados pela Coroa Portuguesa para colonizar a região e viam a monarquia como garantia de estabilidade. Além disso, o envolvimento em uma guerra local poderia comprometer sua segurança e a de sua família.

A neutralidade, no entanto, não foi aceita. Em 1841, Ludwig e três companheiros — Friedrich Glöckner, Mathias Schneider e Nikolaus Leidens — navegavam quando foram emboscados por um grupo de Farroupilhas comandado por um homem conhecido como Capitão Carlos. O ataque ocorreu na confluência dos arroios Cadeia e Feitoria, onde os revolucionários interceptaram a embarcação. O pretexto era a apreensão das mercadorias transportadas, mas a represália foi além: Ludwig e seus companheiros foram assassinados e o lanchão incendiado.

Os corpos permaneceram desaparecidos por oito anos, até serem encontrados em 1849 e levados ao cemitério de  Quatorze Colônias, na mesma região, onde foram sepultados com uma cerimônia conduzida pelo padre Augustin Lipinski. Sem saber o local exato do sepultamento, em novembro de 2021, Valdir Ludwig e outros familiares colocaram uma cruz no mesmo cemitério em homenagem à luta dos antepassados. Peter deixou nove filhos, quatro deles nascidos na Alemanha e os outros cinco no Rio Grande do Sul.

Enviados para a Guerra

Se a Revolução Farroupilha marcou tragicamente a região ao envolver os colonos alemães em disputas entre Império e rebeldes, a Guerra do Paraguai também deixou cicatrizes profundas nas comunidades imigrantes. Para os descendentes desses primeiros europeus, o conflito travado entre 1864 e 1870 representou mais uma prova de fogo: a obrigação de combater em um país distante por uma causa que não lhes dizia respeito diretamente, mas da qual não podiam escapar.

O historiador e doutor Martin Norberto Dreher afirma, no documentário Für Immer – Origens, que a Guerra do Paraguai foi o maior morticínio já registrado na América Latina. Um dos exemplos mais impactantes citados por ele é o de Dois Irmãos: a cidade enviou 40 homens para o combate, mas apenas quatro retornaram para suas famílias.

Os imigrantes que vieram para São Leopoldo a partir de 1824, segundo Dreher, eram majoritariamente trabalhadores rurais, em situação de extrema pobreza, expulsos do campo devido à mecanização agrícola na Europa. O historiador Sandro Blume complementa que, em meio ao desespero, muitos se deslocavam para a América, sem sequer saber se estavam indo para o Norte ou o Sul do continente.

Ao chegarem ao Brasil, os imigrantes foram direcionados para a Colônia Alemã de São Leopoldo, estabelecida dentro de um plano de povoamento idealizado por José Bonifácio. Mas a relação desses colonos com o governo brasileiro era complexa: apesar de receberem terras, muitas vezes eram cobrados com serviços obrigatórios e convocações militares, como ocorreu na Guerra do Paraguai. Jovens das colônias foram recrutados, enfrentando um conflito que ceifou milhares de vidas e impactou toda a região com um grande número de viúvas e órfãos.

De Taquara para as guerras

A história da família Lahm, estabelecida em Taquara, é um mais um dos exemplos de como esses imigrantes se integraram ao novo território e se viram envolvidos em conflitos históricos. Três membros da família morreram durante a Guerra do Paraguai, conforme conta o pesquisador Maicon Leite no projeto Trilhando a História de Taquara.

O patriarca Philipp Jakob Lahm (1794-1872) chegou ao Brasil em 7 de março de 1826, vindo da Alemanha, acompanhado de sua esposa Anna Catharina Weinffenbach e seus filhos. Inicialmente estabelecidos em Lomba Grande, São Leopoldo, mudaram-se posteriormente para Taquara do Mundo Novo, onde a família consolidou suas raízes.

Johann Wilhelm Lahm, um dos filhos de Philipp, teve participação ativa na Revolução Farroupilha, lutando ao lado do Exército Imperial contra os farrapos conforme mostra o livro “A saga dos alemães – do Hunsrück para Santa Maria do Mundo Novo”, de Erni Elgelmann. Johann foi soldado do major Kersting e de Chico Pedro (Francisco Pedro Buarque de Abreu, primeiro e único barão do Jacuí, também chamado de “Moringue”), na Guerra dos Farrapos. Ou seja, estava a serviço do Exército Imperial contra os farroupilhas liderados pelo general Bento Gonçalves. Décadas depois Johann se destacou no ramo de curtição de couro, sendo o fundador do primeiro curtume de Taquara.

A tradição militar da família se manteve e, décadas depois, três descendentes de Philipp Jakob Lahm foram chamados para lutar na Guerra do Paraguai. Segundo registros históricos, Philipp Jakob Lahm (filho), Wilhelm Lahm e Daniel Lahm morreram durante o conflito, todos em 1867.

Philipp (1820-1867), o filho, ao saber da convocação de seus sobrinhos Wilhelm e Daniel Lahm, decidiu se alistar voluntariamente no Batalhão de Alemães, unidade composta por imigrantes que lutaram pelo Brasil (por vontade própria ou forçados). Ele morreu em abril daquele ano, aos 46 anos, durante um combate. As circunstâncias exatas não são totalmente documentadas, mas é provável que tenha acontecido durante uma das ofensivas brasileiras sobre território paraguaio.

Wilhelm Lahm (1845-1867) era neto do imigrante e filho de Johann Wilhelm Lahm (que lutou na Revolução Farroupilha). Morreu aos 21 anos, entre 10 e 16 de abril, vítima da epidemia de cólera que assolou o Exército Imperial. A doença se espalhou rapidamente entre os soldados, dizimando batalhões inteiros antes mesmo que pudessem enfrentar o inimigo. Wilhelm estava em Curuzú, uma posição estratégica nas margens do Rio Paraguai, quando sucumbiu à infecção.

Já Daniel Lahm (1847-1867), também neto do patriarca e filho de Johann Wilhelm Lahm, o irmão de Wilhelm, morreu em 7 de fevereiro na Ilha Cirito, aos 20 anos, durante um dos confrontos navais na região. Os registros indicam que ele estava embarcado quando a frota brasileira foi atacada por artilharia paraguaia e canoas armadas, sendo possivelmente atingido durante a troca de tiros ou vitimado pela explosão de um dos navios atingidos.

O Batalhão de Alemães, ou Bateria Alemã, foi formado principalmente por imigrantes e descendentes alemães do Sul do Brasil. Eles participaram de batalhas importantes, como Tuiuti, Curupaiti e Avaí, enfrentando tanto os combates diretos quanto os desafios impostos por doenças como a cólera, que vitimou milhares de soldados.

Estima-se que entre 50 e 60 mil brasileiros tenham morrido na guerra, enquanto o Paraguai perdeu cerca de 280 mil pessoas, mais da metade de sua população na época. O número total de mortos, considerando todos os envolvidos no conflito, pode ter ultrapassado 400 mil.

Legado e memória

A participação da família Lahm na Guerra do Paraguai representa o engajamento de imigrantes na história brasileira, mas também os sacrifícios feitos por essas famílias na construção do País. O imigrante Philipp Jakob Lahm morreu em 1872, cinco anos após perder um filho e dois netos no conflito, mas deixando inúmeros descendentes que até hoje vivem em Taquara e na região.

Dessa forma, tanto a Revolução Farroupilha quanto a Guerra do Paraguai se entrelaçam na história das colônias alemãs do Vale dos Sinos, revelando que, além dos grandes embates que marcaram o País, houve também batalhas silenciosas travadas dentro das próprias comunidades imigrantes. O sofrimento e a força desses colonos para se reerguer foram parte fundamental do processo de formação da região.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.